Sem barulho
Sobre crescer, mudar, recomeçar — e permanecer
Flavia Cabral
12/22/20253 min read


Este ano, Nico entra em novos campos. Troca de categoria, troca de bola, troca de desafios. Mas o uniforme permanece o mesmo. Talvez alguns meninos mudem de time, outros desistam. Mudanças fazem parte da vida — ainda que, à primeira vista, tudo pareça essencialmente igual.
Em conversa com uma mãe esses dias, ela me contou os desafios que enfrentou quando o filho trocou de time. E ela, que acompanha meus textos, me pediu para escrever sobre isso.
Fiquei muito tempo pensando nisso.
Mudar parece complicado. Quase sempre, a mudança vem acompanhada de um luto silencioso. Mesmo quando a escolha é racionalizada, planejada, conversada, existe o medo de recomeçar, o vazio de não estar mais onde se construiu tanta coisa, a saudade do que ficou. O consciente diz: estamos melhores. E, ainda assim, a saudade aparece.
Em todas as vezes em que precisei mudar — de escola, de emprego, de cidade, foi assim. Como quando mudamos para Atibaia. Sempre que visito minha cidade antiga, São Paulo, vem um saudosismo que às vezes dói, às vezes aquece. Revisito rostos, lugares, cheiros, versões de quem fui num espaço que não ocupo mais. E, então, reconheço a vida que se construiu a partir dali e tudo que ganhamos.
Nico não muda de time. Mas este ano traz uma mudança enorme: a escola.
Sai do Fundamental I e encerra o ciclo na escola onde estudou desde os quatro anos. Entra em outra maior, com mais autonomia, sem uniforme, com prova. Tudo muda: mais lição, mais estudo, mais responsabilidade. Novos amigos.
A mudança foi planejada. Vínhamos, há dois anos, conversando sobre a transição. Mas fomos adiando numa tentativa — talvez ingênua — de protegê-lo no confortável. Quando finalmente resolvemos seguir, eu me preparei para o impacto. Esperei o estrondo: choro, resistência, negação.
Mas não.
Ele encarou tudo com uma maturidade que não faz barulho. Prestou atenção quando o professor da escola nova explicou o funcionamento, fez perguntas, pediu para conhecer os materiais e os espaços. Buscou informações fora: conversou com pessoas que estudam lá, que já estudaram, com outros adultos, com os avós, com o treinador de beisebol. Digeriu — e ainda está digerindo — com uma tranquilidade, esperança e animação que eu não esperava encontrar. E se imaginou vivendo ali: no intervalo, na sala, conversando.
O que um menino vive ao mudar de time — o estranhamento, a necessidade de se provar de novo, a saudade do que ficou, o medo silencioso de não pertencer — o Nico está prestes a viver. Vai entrar sem saber onde sentar, com quem falar, como funciona. Vai ter que reconstruir referências, vínculos, confiança. E vestir coragem todos os dias até que o novo vire casa. Nico imagina isso e tem se preparado.
Talvez ele atravesse tudo com a calma que eu não tive até aqui porque já entendeu que ciclos se encerram — e que crescer é seguir. Mesmo quando dá saudade. Mesmo quando o cenário parecia bom o suficiente. Entender isso, aos 11 anos, é enorme. Difícil. Mas enorme.
Enquanto Nico atravessa grandes mudanças, Olivia permanece. Permanece do jeito que só quem tem quase cinco anos pode permanecer. No mesmo ritmo, no mesmo lugar, com o mesmo direito que ele teve até aqui: o de crescer sem pressa. Vai continuar subindo nas árvores para comer amoras, com longos períodos de brincadeiras no parque, as mesmas amigas fazendo atividades manuais.
Ela vive o tempo da repetição, da segurança, do corpo que aprende brincando, na escola que tanto acolheu o irmão. E, agora, aquele espaço é só dela. A escola da Olivia que nos lembra que permanecer também é um estágio legítimo do crescimento — e que cada infância acontece no seu tempo e no seu próprio ciclo.
Nós, os adultos da casa, seguimos fazendo o que sabemos fazer melhor: estar. Nem sempre do jeito perfeito, mas do jeito possível. Caminhamos ao lado. Observando de perto. Tentando não segurar demais, nem soltar cedo demais. Acolhendo. Aplaudindo. Respirando fundo quando dá medo. E nos surpreendendo com as crianças que estamos ajudando a crescer.
2026 começou sem barulho — mas com tudo mudando ou permanecendo. Para a mãe com quem conversei: confia. Tudo se encaixa. Está se encaixando aqui também. E todos vamos crescer.
O ano começa sempre assim: em silêncio.
Não há apito, não há largada oficial, não há placa avisando que agora é diferente. O mês começa igual aos outros. O café tem o mesmo gosto. As crianças, ainda nos últimos dias de férias, continuam crescendo sem pedir licença. Mas a gente sabe que alguma coisa mudou — ou melhor, que vai mudar.
Gostou da crônica? Leia também:
Inscreva-se na nossa newsletter
Não enfrente a arquibancada sozinha. Receba as crônicas para Mães de Atleta no seu e-mail e leia histórias que podem te inspirar a ajudar seus pequenos atletas a seguir um sonho
Contato
Você é mãe de atleta (de qualquer esporte) e quer compartilhar sua experiência? Mande sua história. Eu posso transformá-la em crônica ou publicar como depoimento.
Newsletter
© 2025. All rights reserved.
Apoio
Receba as crônicas no seu e-mail, na hora que são publicadas
Essas marcas acreditam no poder transformador do esporte para as crianças

